26/06/2013

"Estás a viver o teu sonho?"

- Oh Zé! Acorda que já são horas!
Acordei sobressaltado com a voz da minha Marília. Hoje é domingo, vamos com a família ao cais. O programa é sempre o do costume: o meu cunhado que tem tudo do bom e do melhor, isto é, segundo ele, leva o fogareiro XY144/2, o melhor do mercado, mas que faz tanto fumo como qualquer outro. A Juzinha  exibe sempre umas madeixas diferentes a cada encontro, cada vez mais irreverentes, feitas pela detestável cabeleireira. Pois, pouco disto eu sei, mas continuo sem perceber porque ela lá continua a ir se tão mal diz dela… MULHERES! O marido dela, o Fredo, é um ponto. A vida com ele é uma comédia. Vamos muitos para a beira-rio, perto de vinte pessoas. É uma correria e algazarra feliz! Crianças a correr atrás de bolas e adultos da melhor conversa, ou coscuvilhice, entre secções. Eu prefiro sempre a zona do grelhador, não só comida está perto, mas, também, o pessoal divertido encontra-se lá!
A Marília está na cozinha, quando me levanto. Aquele odor maravilhoso, as costeletas panadas pela minha mulher são fantásticas, toda a gente as aprecia. Eu sei que sou suspeito, mas da mesma maneira que aquela senhora moldou de forma exímia a minha vida, qualquer parte em que aquelas suaves mãos toquem algo, semelhantemente, espectacular acontece.
Após as devidas preparações, saímos de casa no meu prodigioso carro. Chegamos um pouco atrasados, o assador já funciona e as crianças já mergulharam no rio. Nesse momento, vejo o meu sobrinho a acenar-me para ir ter com ele à água. Tirei a camisola e mergulhei.

-Oh Zé! Acorda que já são horas!
Acordo sobressaltado com a voz da minha patroa. Hoje é domingo e o restaurante está cheio.
Estava a ter um sonho fantástico. Sonhei com Marília que costuma vir cá, por quem suspiro. Vejo e estudo os comportamentos das famílias numerosas, as típicas cunhadas e cunhados, como a Juzinha e o Fredo.
As costeletas que cheirava no meu sonho eram, provavelmente, as que se servem no restaurante. Além, na mesa longa no fim da sala, vejo o meu  “sobrinho” acenar. Quando lhe pergunto o que deseja, também mergulho. O rapaz atira-me com a bebida do seu copo.


Perante uma vida miserável, não faz mal sonhar, pois não?

09/04/2013

Diagnósticos

Sou doente. Nunca fui de me queixar, mas já não posso esconder mais quando está clarividente.
Tudo começou com umas dores de barriga infindáveis, que me faziam contorcer, suar, às vezes, confesso, chorava por não as controlar. Embora tudo o que é mau tem o fim, as minhas dores simplesmente atenuavam, não sumiam. Por exemplo, quando estava sozinha, talvez no meu quarto, o sofrimento acalmava imenso, mas quase de imediato apareciam-me as alucinações. Não sou propriamente supersticiosa, nem nada que se pareça, mas creio que o que me acontecia era obra do além. Estas visões que me perseguiam eram bastante frequentes, abalando a minha concentração nos mais diversos momentos do dia. Para aumentar o meu constrangimento, já não bastasse estar a ficar doida, após estas alucinações sentia-me envergonhada, como se que aquilo que estivesse a processar na minha cabeça, fosse visível a todos e, por muito que me agradasse não seria bom ser do conhecimento público.
Após todos estes sintomas, comecei a pensar que talvez sofresse de uma enfermidade de foro psicológico. As minhas expectativas acabaram por se confirmar. Pouco tempo mais tarde, vir-me-ia a sentir bipolar. Para mim, tudo se tratava de segundos. Num segundo estava incrivelmente contente, porque a vida era incrível, o Sol estava no ar e o coração bombeava o meu sangue a uma velocidade estonteante, era a rainha e senhora da felicidade. No segundo seguinte já a chuva sobrevoava a minha testa, relâmpagos em cima dos meus olhos o coração parava por momentos. Suspeitei de problemas cardíacos.
O meu estado começava a tornar-se problemático e, para tornar tudo um pouco pior, comecei a sentir calafrios, arrepios nas costas que se ramificavam até aos braços. Não me sentia febril, pelo contrário, estava frenética, queria pular, rebolar, ou simplesmente sorrir. Para este último não encontrei no meu atlas caseiro de medicina resposta. Cheguei a pensar que se calhar consumi, inesperadamente, alguma droga – seria a única explicação para sensações tão aleatórias e de tal euforia. Resolvi, então, contactar profissionais na área. Não me encontraram qualquer anomalia, estava até com os níveis muito equilibrados.
Com uma boa dose de comédias românticas, romances e uma pitada de música lamechas, apercebi-me de que padecia realmente. Os ciúmes, a ansiedade, as saudades e tantas outras coisas são a justificação para a minha condição. Todavia, que não se pense que errei completamente nos meus prognósticos, afinal, eram mesmo problemas de coração! Sou doente, doente crónica. Sofro da mais bela e arrasadora enfermidade do mundo, sofro de amor! 

15/11/2012

“Lusofonia – Importância da Língua Portuguesa”


Cada nação tem os seus elementos característicos. Escusado será dizer que uma casa, em qualquer parte do mundo, que emane cheiro a sardinha numa noite de Verão é, definitivamente, casa de gente portuguesa! Portugal é sardinha, toucinho, fado, cantar alentejano, é futebol ao sábado à tarde, é galo de Barcelos, é tudo isto e muito mais! Todavia, hoje pretendo dar um maior realce à língua portuguesa como elemento identificador do nosso Portugal!
O português e a sua invejável longevidade e dimensão! O nosso idioma estende-se por todos os cantos do mundo, em cada continente há vários países lusófonos Enche-me, sem dúvida, de orgulho dois dos elementos específicos da nossa língua: a sonoridade firme e o vasto vocabulário, isto porque são responsáveis pelas magnificas composições poéticas, discursos incríveis, entre outros textos escritos ou ditos que me encantam. No entanto, infelizmente, a nossa língua é muitas vezes mal utilizada. Fico muito triste ao ver palavras com a sua definição já muito bem assente, sendo trocadas por outros vocábulos ou mal soletradas e pronunciadas! Gostava que todos tivéssemos o mesmo interesse por esta problemática e melhorássemos as nossas aptidões com aulas de Português, com a leitura, ou com outros meios potencializadores da boa dicção e boa utilização da língua portuguesa!
Outra situação que me deixa muito infeliz é a constante comercialização do nosso idioma, através de livros, da música e de outros meios de comunicação. Um exemplo dessa tentativa de comunicação é, por exemplo, o novo acordo ortográfico. Entristece-me que este nosso símbolo seja alterado por valores económicos, para que os nossos produtos entrem de forma mais fácil nos mercados dos outros países. Sei que esta atitude pode trazer algumas vantagens ao nosso país, no entanto, não penso que seja necessário escrever como um brasileiro para que as relações entre os dois países melhorem. Não crítico de forma alguma a utilização do idioma português, pelos brasileiros, por exemplo, isto porque, cada um dos países é livre de falar como quer, fazendo com que as pequenas particularidades que acrescentam à língua se tornem um grande emblema da sua nação! Desse modo, penso que nos deveríamos manter originais às nossas proveniências!
Apesar de todas as lacunas que possam estar associadas à língua portuguesa, devo confessar o meu amor imenso ao meu idioma materno, agradecendo a todos os escritores e oradores que enaltecem a nossa língua!

15/10/2012

Do alto do meu sofá contemplo a juventude.



Do alto do meu sofá contemplo a juventude.
Tão simples, tão feliz, tão livre.

Do alto do meu olhar contemplo a juventude.
Tão irreal, tão mística, tão presa.

Cedo à ingenuidade e admiro todos pelo que mostram. Rotulo-os conforme o que aparentam. Sorrisos e gargalhadas, que, porém, escondem o pudor da rejeição. Insegurança e medo são camuflados entre goles e passas de um qualquer maleficio que por aí ande, na ribalta.
Os livros, os filmes, a música inspiradora, a busca pelo conhecimento empírico, histórico ou não, são trocados por boatos infundados, por escândalos evitáveis, pela desgraça alheia. Sim, porque os jovens que retrato têm mais interesse pelo ostracizado, do que por si - ele é que é mau, ele é que erra, ele é que… Julgam, criticam, chegam ao ponto de “solucionar” os problemas do vitimizado. No que toca ao vizinho, não se “inibem” em ajudar, perdem tanto tempo a olhar para o lado que se esquecem de direcionar a cabeça para a frente. Deram tanta relevância a algo tão menor que pisaram as oportunidades de sucesso que lhes foram apresentadas, quase oferecidas. Aqui é quando os papeis se alteram, a personagem é só uma, a ação é que é paradoxal, a vítima e o vilão são a mesma pessoa.
Por entre todo o fumo que este grupo de pares lança, eu não perco o rumo, nem me afogo na quantidade de álcool que eles entornam sob si. Eu sento-me no meu sofá e, para não me aborrecer, fecho os olhos e contemplo esta linda juventude: tão simples, tão feliz, tão livre.

22/09/2012

Contemplo a parede à minha frente.

Por entre o lusco-fusco da minha vida deformei a realidade.
Deitada no sofá contemplo a parede à minha frente, amarela, não forte, pálida, insegura, gasta e triste. Este bloco de cimento ao alto, não passa de um monte de tijolos empoleirados entre si, que traz consigo, para além de pó e alguns aranhos, somente história e saudade. Conta os momentos que viu de fora, guarda em si pessoas que por si passaram, salva a mágoa de ser uma parede duma casa de aldeia. Paredes visitadas sazonalmente, abandonadas em todo o outro tempo, ainda assim ornadas de apetrechos. Ninguém equaciona a dor. Primeiro por certo motivo ou até por motivo nenhum, espetam pregos sem dó, magoando quem quieto estava, deixando-lhes ainda lá um objeto ou um buraco de recordação.

Deitada no sofá, quando olhava para a parede à minha frente, no lusco-fusco da minha vida, o pendericalho que na parede morava, confundiu-se com a mesma. Estranhei. Esfreguei os olhos e lá estava o objeto. Algum tempo depois o mesmo aconteceu, pisquei os olhos com força e o ornamento reapareceu! De facto, tive a ilusão do seu desaparecimento, apesar de num estado menos sóbrio não o ver, ele estava lá e de lá nunca saiu.
Pergunto-me: terá a parede aprendido a viver com os buracos que tem em si, ou terão as formigas fechado os orifícios?

09/09/2012

Entre o ser e o parecer!



Entre o ser e o parecer
Moram milhares de cabeças.
São moldadas
Aliciadas e
Encantadas.
O poder do mau hábito
O amor barato e a curiosidade fugaz
Comprometem o andamento.
Nesta estrada que liga os locais
Somos nós o maior acontecimento.
Cedemos a nada e esquecemos tudo,
Vendemos o que temos e o que não temos
Esperamos o mundo e depois,
Nada vemos.

Atração pelo que a genética não deu.
Atração pelo que toda a gente impediu.
Entre goles, fumo e gargalhadas,
Sumiu.
Acabou-se a inocência.
Acabou-se a consciência.
Ganhou-se um rosto no parecer.
Enquanto que algo fugiu, por já não ser.