22/09/2012

Contemplo a parede à minha frente.

Por entre o lusco-fusco da minha vida deformei a realidade.
Deitada no sofá contemplo a parede à minha frente, amarela, não forte, pálida, insegura, gasta e triste. Este bloco de cimento ao alto, não passa de um monte de tijolos empoleirados entre si, que traz consigo, para além de pó e alguns aranhos, somente história e saudade. Conta os momentos que viu de fora, guarda em si pessoas que por si passaram, salva a mágoa de ser uma parede duma casa de aldeia. Paredes visitadas sazonalmente, abandonadas em todo o outro tempo, ainda assim ornadas de apetrechos. Ninguém equaciona a dor. Primeiro por certo motivo ou até por motivo nenhum, espetam pregos sem dó, magoando quem quieto estava, deixando-lhes ainda lá um objeto ou um buraco de recordação.

Deitada no sofá, quando olhava para a parede à minha frente, no lusco-fusco da minha vida, o pendericalho que na parede morava, confundiu-se com a mesma. Estranhei. Esfreguei os olhos e lá estava o objeto. Algum tempo depois o mesmo aconteceu, pisquei os olhos com força e o ornamento reapareceu! De facto, tive a ilusão do seu desaparecimento, apesar de num estado menos sóbrio não o ver, ele estava lá e de lá nunca saiu.
Pergunto-me: terá a parede aprendido a viver com os buracos que tem em si, ou terão as formigas fechado os orifícios?

09/09/2012

Entre o ser e o parecer!



Entre o ser e o parecer
Moram milhares de cabeças.
São moldadas
Aliciadas e
Encantadas.
O poder do mau hábito
O amor barato e a curiosidade fugaz
Comprometem o andamento.
Nesta estrada que liga os locais
Somos nós o maior acontecimento.
Cedemos a nada e esquecemos tudo,
Vendemos o que temos e o que não temos
Esperamos o mundo e depois,
Nada vemos.

Atração pelo que a genética não deu.
Atração pelo que toda a gente impediu.
Entre goles, fumo e gargalhadas,
Sumiu.
Acabou-se a inocência.
Acabou-se a consciência.
Ganhou-se um rosto no parecer.
Enquanto que algo fugiu, por já não ser.

08/09/2012

Portugal Remoto


                                                                               

Algures numa rua lisboeta, em 1971, encontrámos Leonor, Nonô para os amigos do bairro e da escola, uma curiosa e astuciosa miúda.
 Leonor, apesar de jovem, não era mais uma criança de 13 anos. Passava horas a estudar meticulosamente o tricotar da avó, sabia da frente para trás os rituais da sua família. O pai chegava sempre pela hora do jantar, a mãe não trabalhava, e, por isso, as suas saídas eram unicamente para ir ao mercado, ou dar dois dedos de conversa com as amigas. Bem, na verdade, sabia de quase todos, o seu irmão não tinha horários, saía quando a Nonô já estava na escola e quando chegava, esta já dormia. A nossa rapariga sabia todos os traços da sua família, conhecia cada canto do quotidiano de sua casa e quando a noite descia e o escuro se apoderava do domicílio da família Pinto, Nonô ouvia as vozes preocupadas dos seus pais. ´
_ Já não dá, aquele malandro tem de atinar! Nós já não conseguimos esticar mais!
Muitas noites, Leonor  matutou no que ouvia. Questionava-se acerca destas palavras, quem seria o “ele” de que os pais falavam e o que é que eles teriam de esticar? Ela queimou neurónios a pensar nisto. No entanto, um fumo revelador de ideias, levou-a a perceber do que se tratava.
Certa noite a luz fosca do candeeiro da rua, clareava parte do quarto de Leonor, iluminava também os seus pensamentos e alumiaram a discussão entre os homens da casa:
_Onde é que tu estás com a cabeça Manel?? Ultimamente é só tabaco, é só galdérias e cerveja!! Tu queres ir para onde sabemos? Nem faculdade, nem trabalho, nem nada? Achas que a comida vem de onde, ah?? _ Foi aí que finalmente percebeu, que o “malandro” de que o seu pai falava no outro dia, era Manel, o seu irmão. Leonor conhecia a vida boémia do irmão, mas não percebia ao que o pai se referia, para onde haveria ele de ir?
                                                                             
II
Eram 15h30, Leonor e as suas duas melhores amigas, Inês e Maria, cantarolavam a caminho de casa, vindas da escola, sorriam ao vento e cumprimentavam as senhoras mais velhas do bairro – dava-lhes um certo jeito, haver quem lhes comprasse as pastilhas de vez em quando – exibiam um sorriso brilhante! Nonô, gostava de partilhar os últimos acontecimentos com as suas companheiras, no entanto, não acreditava que estas compreendessem os seus problemas. Após as despedidas, quando chega a casa, anseia o seu habitual pão com manteiga e sumo de laranja. Quando procura o seu sumo de laranja, repara que é a segunda semana consecutiva em que abre o frigorifico e não encontra o seu néctar divino. O mesmo acontecera com os biscoitos, o amaciador da roupa já não era o rotineiro e ao jantar a sopa era o ponto alto da refeição. Os poucos trocos que recebia para lambarices eram cada vez menos, era óbvio, a sua família estava com dificuldades económicas.
Nonô debatia-se com um enorme problema, a sua jovialidade impossibilitava-a de trabalhar, sendo que assim, era muito complicado ajudar a sua família. Ela pensou em poupar, mas afinal, poupar o dinheiro que já não era dela? Insatisfeita com a sua condição, fez uma lista mental do que poderia fazer: pensou em vender roupa, mas a mãe era capaz de não gostar da ideia e provavelmente o único pagamento que receberia seria em forma de palmada… Pensou ainda em roubar as esmolas da igreja, no entanto Deus vê tudo e se um castigo da mãe é mau, o do Senhor é infernal... Por fim, um pensamento sensato! Leonor, poderia aliar a sua enorme aptidão para a bijuteria à necessidade de dinheiro, fazendo assim pulseiras e colares para vender em casa, ou quem sabe em alguma loja do bairro.

                                                                              III           

Aproveitando alguns fios e missangas, todos os dias depois do jantar, a nossa miúda trabalhava arduamente, ao som das – segundo Manel – “grandes malhas” dos Beatles, o seu irmão dizia que aquelas cassetes eram um achado! Leonor não percebia, mas apreciava o que ouvia.
Numa das noites, não deu pelo tempo passar e já a cidade dormira quando se apercebeu da hora. Pelos vistos, não era a única a acordada, ouviu mais uma das discussões entre o seu pai e o irmão:
_ Onde é que tu andaste? Não vieste jantar, não ligaste para casa… A tua mãe ainda não pregou olho! Onde é que estavas? _ dizia o patriarca da família rigidamente.
_ Pai… Pai… Hoje fui ver quais eram os listados para ir… para África… e pai..
_ Não meu filho, não!
_ Desculpa pai, desculpe!
Neste momento Leonor ouviu soluços vindos do corredor, não podia acreditar, os dois homens, as duas únicas pessoas que nunca vira chorar, estavam em tremendo pranto. Leonor deixou a sua cama, olhou por uma frincha da porta, para que ninguém a visse. Agora já ninguém falava, no escuro do hall de entrada, viu os seus dois homens de ferro abraçados, banhados em lágrimas.
A partir daquela noite o ambiente na casa da família Pinto mudara. Os jantares eram servidos de silêncio, ninguém levantava os olhos do chão, o pai fumava mais do que alguma vez fumara, a mãe estava com um ar cada vez mais abatido, os seus olhos descaiam, parecia que envelhecera 30 anos, em apenas 2 dias.  Manel também parecera mais crescido, para além de passar mais tempo em casa, era o esfervilhador daquela casa. Todos sabiam que ele estava triste, afinal, era ele que ia para a guerra. No entanto, era quem animava a casa, chegava a brincar com a situação:
_Vais ver Leonor, vou lá passar umas férias e quando deres por ela já cá estou a dar-te cabo do juízo outra vez!_ Chegavam a ser ridículas as baboseiras que dizia, mas tinham tanto de parvo como de eficaz e sem dúvida que fazia rir!

IV
               
Chegou a noite anterior à partida. A tarde deste dia foi marcada por uma ida à igreja, mãe e pai pediam a Deus proteção para o seu filho, para que este regrasse a casa com saúde, mas mais que tudo desejavam e oravam ao Senhor para que Manel voltasse. O fim da tarde teve direito a um passeio em família, houve tempo para brincadeiras, jogo de cartas no jardim e sorrisos, por algumas horas viveram uns para os outros, esqueceram-se do infortúnio de que tinham sido alvo. O jantar também foi calmo e feliz, não sucederam discussões nem maus ambientes, todos os membros desta família estavam em sintonia e assim continuaram até à partida.
Na manhã seguinte, ainda cedo a família Pinto dirigiu-se até ao cais. O silêncio impôs-se durante a viagem, os pensamentos dos 4 vagueavam, mas todos iam dar ao mesmo sítio, a África. Pensavam no futuro com esperança e no passado com saudade, era um sentimento difícil de gerir, os mais velhos não queriam chorar, não queriam deixar os filhos mais nervosos, Nonô, apesar de pequena não queria virar as atenções para ti e por isso guardou para si o mais que pode, e claro, Manel não podia dar parte fraca nem preocupar ninguém e por isso mantinha-se sereno.
No cais encontravam-se já muitas famílias, viam-se crianças a chorar, mães a carpir, pais a disfarçar as lágrimas, animais desorientados, muitas malas, sentiam-se vários odores, entre eles a aragem marítima era a que mais se evidenciou… Ao fundo estava o grande barco que os levaria até ao destino. Até ao local onde embarcaria, Manel caminhava com a sua família, cumprimentando os conhecidos do bairro, agora seus companheiros. Era notável o nervosismo de todos os jovens, entre abraços e “passou-bens”, via-se o nervosismo dos rapazes refletido no tremelique frenético das suas mãos.
A família Pinto chegou à porta de embarcação de Manel, aquela dor no peito fina como uma agulha começa a crescer, essa dor dirige-se até aos olhos, converte-se em água e começa assim a descer pelos rostos, o sorriso abre-se e então sorriem. Choram pela distância sorriem pela dádiva de estarem unidos.
_Toma cuidado contigo, liga sempre que puderes, tira fotografias e vê-se te alimentas! _as mães sempre cuidadosas com as suas crias.
_ Tem cuidado contigo, volta para nós depressa meu filho. _ os pais sempre certeiros e diretos.
Entre abraços e recomendações se despediam. Chegara assim a vez de Nonô, pela primeira vez deu um abraço ao seu irmão, isto é, um abraço que não fosse imposto como um castigo, por se terem magoado ou terem feito partidas um ao outro. Também pela primeira vez na vida, segundo Leonor, o seu irmão tinha sido querido:
_ Volto depressa, quero-te ver crescer! Vá, até breve!
_ Espera, tenho uma coisa para te dar! _ disse Leonor.
Leonor ofereceu ao seu irmão uma das suas pulseiras e deu-lhe com a certeza que assim ele não se esqueceria dela e mostrou-lhe outra que trazia no seu pulso, exatamente igual à de Manel. Assim, também estavam ligados, juntos, mesmo a milhares de quilómetros de distância.
Manel embarcou, rumou a África e de terra, Leonor e seus pais acenavam.

“Arre, estou farto de semideuses! Onde há gente no mundo?”



Sempre que entro numa sala cheia de desconhecidos, num estabelecimento público cultural, parece que penetro numa espécie de consílio dos deuses.
Quando me encontro em espaços como o anteriormente descrito, toda as pessoas parecem irrepreensíveis. Ninguém cheira mal, ninguém veste mal, ninguém espirra, cabelos parecem intocáveis, não mexem um milímetro, roupa sem um vinco, nada está fora do sítio façam o que fizerem! Todo este ambiente quase divinal torna-se doentio para alguém como eu. Para mim, que à semelhança de Fernando Pessoa no seu “Poema em Linha Recta”, denoto que ninguém parece descortês, ninguém parece mal, ninguém, exceto a minha pessoa. Parece que todos eles estão formatados, apresentam-se como manequins engravatados, penso que a única diferença está mesmo no que têm dentro da cabeça, enquanto os manequins possuem o material de que são feitos, estes senhores não contém nada!
Aquando da primeira impressão todos sugerem cultura, gostos ecléticos, pessoas realmente educadas, porém numa segunda abordagem denotamos a sua verdadeira essência e aí é que surge a minha revolta. Agem como o pináculo da doutrina social, no entanto são a pior escória que caminha pelas ruas, pois apesar de se assumirem como pessoas corretas e decentes, são, simplesmente, politicamente corretos. Espalham simpatia a pessoas que já torturaram milhares de vezes nas suas mentes, levantam o dedo mindinho em sinal de elegância, mas cospem no prato que os serviu pela primeira vez. Por estes comportamentos hipócritas e vazios, para mim, as pessoas são como as laranjas: bonitas, brilhantes e apetecíveis, no entanto quando se espreme o seu conteúdo pouco ou nenhum sumo dão. Tudo depende da árvore de que provém, caso esta seja forte, pode se ter a certeza que mesmo em ano de más colheitas, tudo o que dali for colhido, será de sucesso. Porém, se a árvore não tiver raízes bem assentes na terra e procurar a água de que precisa, nunca terá laranjas tão apetecíveis como o da laranjeira anteriormente referida. Claro está que ninguém escolhe a árvore de que provém, mas podemos sempre lançar as nossas sementes e cultivar-nos de forma e criar uma nova laranjeira de bom fruto!
Com tudo isto quero louvar todas as pessoas que em algum sentido pareceram ridículas, que fugiram aos padrões da sociedade principesca em que vivemos. À “gente” que prefere: praticar algo bom, ao parecer bem; conhecer outros mundos a outras estilistas; estender o seu intelecto, à sua conta bancária; agitar os seus cabelos e corpos ao som da música popular com sabor a sardinha, do que caviar e cocktail; e que, por fim, não pretendem ser Deuses ou divas, mas sim ter uma vida divinal!
Sejamos todos um pouco vis e ridículos, um pouco mais felizes!