05/09/2012

Sujei Uma Folha



Faço tentativas, em vão, de preencher esta página vazia.
Estou a sujar a brancura desta página com vocábulos incertos, duma inofensividade medonha. Palavras que entram de mansinho, sem levantar qualquer tipo de poeira nesta folha branca, aparentemente pacíficas. Até que ponto sou cruel ao manchar toda esta brancura celestial, com as minhas mãos sujas, por terras que remexi ingenuamente? Peguei nesses pedaços de solo e coloquei-os sobre a minha mão, observei-os, toquei-lhes, sorri-lhes, como uma criança.
Enquanto passeava o meu sorriso, nesta noite estrelada e quente de Verão, não reparei no que trazia nas mãos. Algo pequeno, talvez um bicho mordera-me, enquanto vivia iludida, cobrindo os meus dedos de terra fresca.
Agora estou aqui, apercebi-me de como nada aconteceu ao animal, nem à terra. Sujei esta folha, com as minhas mãos, sem querer.  Emporcalhei esta página com as minhas mãos sujas, cobertas de lixo, quebrei para sempre a sua brancura divina, acabei com tudo o que ela tinha, e, sem me aperceber, fiquei com um veneno dentro de mim, à primeira vista inofensivo, mas também eu era inofensiva… e manchei esta folha.

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