Faço
tentativas, em vão, de preencher esta página vazia.
Estou a
sujar a brancura desta página com vocábulos incertos, duma inofensividade
medonha. Palavras que entram de mansinho, sem levantar qualquer tipo de poeira
nesta folha branca, aparentemente pacíficas. Até que ponto sou cruel ao manchar
toda esta brancura celestial, com as minhas mãos sujas, por terras que remexi
ingenuamente? Peguei nesses pedaços de solo e coloquei-os sobre a minha mão,
observei-os, toquei-lhes, sorri-lhes, como uma criança.
Enquanto
passeava o meu sorriso, nesta noite estrelada e quente de Verão, não reparei no
que trazia nas mãos. Algo pequeno, talvez um bicho mordera-me, enquanto vivia
iludida, cobrindo os meus dedos de terra fresca.
Agora estou
aqui, apercebi-me de como nada aconteceu ao animal, nem à terra. Sujei esta
folha, com as minhas mãos, sem querer.
Emporcalhei esta página com as minhas mãos sujas, cobertas de lixo,
quebrei para sempre a sua brancura divina, acabei com tudo o que ela tinha, e,
sem me aperceber, fiquei com um veneno dentro de mim, à primeira vista
inofensivo, mas também eu era inofensiva… e manchei esta folha.
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