Algures numa
rua lisboeta, em 1971, encontrámos Leonor, Nonô para os amigos do bairro e da
escola, uma curiosa e astuciosa miúda.
Leonor, apesar de jovem, não era mais uma
criança de 13 anos. Passava horas a estudar meticulosamente o tricotar da avó,
sabia da frente para trás os rituais da sua família. O pai chegava sempre pela
hora do jantar, a mãe não trabalhava, e, por isso, as suas saídas eram
unicamente para ir ao mercado, ou dar dois dedos de conversa com as amigas.
Bem, na verdade, sabia de quase todos, o seu irmão não tinha horários, saía
quando a Nonô já estava na escola e quando chegava, esta já dormia. A nossa
rapariga sabia todos os traços da sua família, conhecia cada canto do
quotidiano de sua casa e quando a noite descia e o escuro se apoderava do
domicílio da família Pinto, Nonô ouvia as vozes preocupadas dos seus pais. ´
_ Já não dá,
aquele malandro tem de atinar! Nós já não conseguimos esticar mais!
Muitas
noites, Leonor matutou no que ouvia.
Questionava-se acerca destas palavras, quem seria o “ele” de que os pais
falavam e o que é que eles teriam de esticar? Ela queimou neurónios a pensar
nisto. No entanto, um fumo revelador de ideias, levou-a a perceber do que se
tratava.
Certa noite
a luz fosca do candeeiro da rua, clareava parte do quarto de Leonor, iluminava
também os seus pensamentos e alumiaram a discussão entre os homens da casa:
_Onde é que
tu estás com a cabeça Manel?? Ultimamente é só tabaco, é só galdérias e
cerveja!! Tu queres ir para onde sabemos? Nem faculdade, nem trabalho, nem
nada? Achas que a comida vem de onde, ah?? _ Foi aí que finalmente percebeu,
que o “malandro” de que o seu pai falava no outro dia, era Manel, o seu irmão.
Leonor conhecia a vida boémia do irmão, mas não percebia ao que o pai se
referia, para onde haveria ele de ir?
II
Eram 15h30,
Leonor e as suas duas melhores amigas, Inês e Maria, cantarolavam a caminho de
casa, vindas da escola, sorriam ao vento e cumprimentavam as senhoras mais
velhas do bairro – dava-lhes um certo jeito, haver quem lhes comprasse as
pastilhas de vez em quando – exibiam um sorriso brilhante! Nonô, gostava de
partilhar os últimos acontecimentos com as suas companheiras, no entanto, não
acreditava que estas compreendessem os seus problemas. Após as despedidas,
quando chega a casa, anseia o seu habitual pão com manteiga e sumo de laranja.
Quando procura o seu sumo de laranja, repara que é a segunda semana consecutiva
em que abre o frigorifico e não encontra o seu néctar divino. O mesmo
acontecera com os biscoitos, o amaciador da roupa já não era o rotineiro e ao
jantar a sopa era o ponto alto da refeição. Os poucos trocos que recebia para
lambarices eram cada vez menos, era óbvio, a sua família estava com
dificuldades económicas.
Nonô
debatia-se com um enorme problema, a sua jovialidade impossibilitava-a de
trabalhar, sendo que assim, era muito complicado ajudar a sua família. Ela
pensou em poupar, mas afinal, poupar o dinheiro que já não era dela?
Insatisfeita com a sua condição, fez uma lista mental do que poderia fazer:
pensou em vender roupa, mas a mãe era capaz de não gostar da ideia e
provavelmente o único pagamento que receberia seria em forma de palmada… Pensou
ainda em roubar as esmolas da igreja, no entanto Deus vê tudo e se um castigo
da mãe é mau, o do Senhor é infernal... Por fim, um pensamento sensato! Leonor,
poderia aliar a sua enorme aptidão para a bijuteria à necessidade de dinheiro,
fazendo assim pulseiras e colares para vender em casa, ou quem sabe em alguma
loja do bairro.
III
Aproveitando
alguns fios e missangas, todos os dias depois do jantar, a nossa miúda
trabalhava arduamente, ao som das – segundo Manel – “grandes malhas” dos
Beatles, o seu irmão dizia que aquelas cassetes eram um achado! Leonor não
percebia, mas apreciava o que ouvia.
Numa das
noites, não deu pelo tempo passar e já a cidade dormira quando se apercebeu da
hora. Pelos vistos, não era a única a acordada, ouviu mais uma das discussões
entre o seu pai e o irmão:
_ Onde é que
tu andaste? Não vieste jantar, não ligaste para casa… A tua mãe ainda não
pregou olho! Onde é que estavas? _ dizia o patriarca da família rigidamente.
_ Pai… Pai…
Hoje fui ver quais eram os listados para ir… para África… e pai..
_ Não meu
filho, não!
_ Desculpa
pai, desculpe!
Neste
momento Leonor ouviu soluços vindos do corredor, não podia acreditar, os dois
homens, as duas únicas pessoas que nunca vira chorar, estavam em tremendo pranto.
Leonor deixou a sua cama, olhou por uma frincha da porta, para que ninguém a
visse. Agora já ninguém falava, no escuro do hall de entrada, viu os seus dois
homens de ferro abraçados, banhados em lágrimas.
A partir
daquela noite o ambiente na casa da família Pinto mudara. Os jantares eram
servidos de silêncio, ninguém levantava os olhos do chão, o pai fumava mais do
que alguma vez fumara, a mãe estava com um ar cada vez mais abatido, os seus
olhos descaiam, parecia que envelhecera 30 anos, em apenas 2 dias. Manel também parecera mais crescido, para
além de passar mais tempo em casa, era o esfervilhador daquela casa. Todos
sabiam que ele estava triste, afinal, era ele que ia para a guerra. No entanto,
era quem animava a casa, chegava a brincar com a situação:
_Vais ver
Leonor, vou lá passar umas férias e quando deres por ela já cá estou a dar-te
cabo do juízo outra vez!_ Chegavam a ser ridículas as baboseiras que dizia, mas
tinham tanto de parvo como de eficaz e sem dúvida que fazia rir!
IV
Chegou a
noite anterior à partida. A tarde deste dia foi marcada por uma ida à igreja,
mãe e pai pediam a Deus proteção para o seu filho, para que este regrasse a
casa com saúde, mas mais que tudo desejavam e oravam ao Senhor para que Manel
voltasse. O fim da tarde teve direito a um passeio em família, houve tempo para
brincadeiras, jogo de cartas no jardim e sorrisos, por algumas horas viveram
uns para os outros, esqueceram-se do infortúnio de que tinham sido alvo. O
jantar também foi calmo e feliz, não sucederam discussões nem maus ambientes,
todos os membros desta família estavam em sintonia e assim continuaram até à
partida.
Na manhã
seguinte, ainda cedo a família Pinto dirigiu-se até ao cais. O silêncio
impôs-se durante a viagem, os pensamentos dos 4 vagueavam, mas todos iam dar ao
mesmo sítio, a África. Pensavam no futuro com esperança e no passado com
saudade, era um sentimento difícil de gerir, os mais velhos não queriam chorar,
não queriam deixar os filhos mais nervosos, Nonô, apesar de pequena não queria
virar as atenções para ti e por isso guardou para si o mais que pode, e claro,
Manel não podia dar parte fraca nem preocupar ninguém e por isso mantinha-se
sereno.
No cais
encontravam-se já muitas famílias, viam-se crianças a chorar, mães a carpir,
pais a disfarçar as lágrimas, animais desorientados, muitas malas, sentiam-se
vários odores, entre eles a aragem marítima era a que mais se evidenciou… Ao
fundo estava o grande barco que os levaria até ao destino. Até ao local onde
embarcaria, Manel caminhava com a sua família, cumprimentando os conhecidos do
bairro, agora seus companheiros. Era notável o nervosismo de todos os jovens,
entre abraços e “passou-bens”, via-se o nervosismo dos rapazes refletido no
tremelique frenético das suas mãos.
A família
Pinto chegou à porta de embarcação de Manel, aquela dor no peito fina como uma
agulha começa a crescer, essa dor dirige-se até aos olhos, converte-se em água
e começa assim a descer pelos rostos, o sorriso abre-se e então sorriem. Choram
pela distância sorriem pela dádiva de estarem unidos.
_Toma
cuidado contigo, liga sempre que puderes, tira fotografias e vê-se te
alimentas! _as mães sempre cuidadosas com as suas crias.
_ Tem
cuidado contigo, volta para nós depressa meu filho. _ os pais sempre certeiros
e diretos.
Entre
abraços e recomendações se despediam. Chegara assim a vez de Nonô, pela
primeira vez deu um abraço ao seu irmão, isto é, um abraço que não fosse
imposto como um castigo, por se terem magoado ou terem feito partidas um ao
outro. Também pela primeira vez na vida, segundo Leonor, o seu irmão tinha sido
querido:
_ Volto
depressa, quero-te ver crescer! Vá, até breve!
_ Espera,
tenho uma coisa para te dar! _ disse Leonor.
Leonor
ofereceu ao seu irmão uma das suas pulseiras e deu-lhe com a certeza que assim
ele não se esqueceria dela e mostrou-lhe outra que trazia no seu pulso,
exatamente igual à de Manel. Assim, também estavam ligados, juntos, mesmo a
milhares de quilómetros de distância.
Manel
embarcou, rumou a África e de terra, Leonor e seus pais acenavam.
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